Flautista de Hamelin

Ia começar dizendo que já faz 6 anos que moro na mesma zona, mas aí como não dá pra entender se eu tô falando da localização ou do estado da minha vida, eu vou começar dizendo que já faz 6 anos que moro na mesma região, sendo 4 no mesmo bairro. Sempre fui fã da vida em bairro: sentar na frente do portão, deixar o fiado no boteco da esquina, cumprimentar qualquer pessoa na rua e perguntar como tá o tio depois de operar a hemorroida e coisas do tipo. Mas como eu trabalhava fora o dia inteiro, eu demorei pra descobrir os costumes do bairro durante o dia.
Eu lembro que foi só no começo da pandemia que eu descobri que meus vizinhos da esquerda – ironicamente de direita – tinham um filho adolescente, o Luis Henrique. E eu lembro o nome dele porque a mãe ficava o dia inteiro gritando “Luis Henriquê!”, assim mesmo, com ênfase no E final. Ele sempre respondia muito irritado e com muito delay “que é, mãe?”, num tom meio mimadão, o que inclusive me fez contrair um ódio generalizado desse rapaz que, imagino, vivia trancado em seu quarto jogando com fone de ouvido.
No lado direito – também de direita porque, aparentemente, contrariando definições geográficas esse bairro é uma zona – eu já sabia que tinha o Márcio, cuja esposa e filha jamais me foram apresentadas porque Márcio era homem de poucas palavras e só ria e acenava. O segredo da felicidade do casal era o mesmo de muitos casais por aí: desde que Márcio ficasse fora o dia todo e ficasse quietinho quando chegasse ficava tudo bem. Com a quarentena eu descobri – pelas longas brigas com a esposa que ouvia de casa – que, além de ter uma voz meio infantil prum adulto, Márcio era meio burro – era o que ela sempre gritava enquanto corrigia o que ele tinha feito de errado. Depois disso, nunca mais consegui olhar em seus olhos de novo.
Nessa época, às 15h:
a) sua filha treinava a mesma música no teclado, todos os dias, repetidas vezes. E obviamente que depois de tanto tempo e tanto empenho, todo esse esforço não valeu de nada e a música era pessimamente executada;
b) as crianças saíam da escola e além da barulheira da efervescência juvenil daqueles hormônios todos pulsando pensando em caos e cartinhas de yu-gi-oh!, é claro que elas faziam questão de irritar todos cachorros das garagens pelo caminho, que latiam e babavam vorazmente, mais ou menos faz nosso presidente.
Um pensamento que me emocionava é que eu via muito da filha do Márcio nesses cachorros, afinal eles também insistiam diariamente em algo que eles jamais teriam sucesso. Dava pra sentir a conexão do bairro, com todo mundo muito empenhado em não ter sucesso no que se faz. Ainda bem que a democracia e a liberdade vêm justamente para garantir o direito de quebrar a cara todos os dias e eu mesmo pratico isso todos os dias;
c) Um senhor que coletava recicláveis passava balançando cacarecos com seu carinho de supermercado que balançava muito, sempre com um cachorro em cima. Eu tenho pra mim que os cachorros ficavam possessos em ver ali uma espécie de traidor e se procurasse bem talvez fosse capaz de achar ali um cachorro quieto no seu canto, sem latir, apenas julgando com o olhar esse X-9 – ou K-9, usando aí a gíria de uma grande clássico do cinema de cachorro.
A gente se mudou pruma outra casa no mesmo bairro e por um tempo bateu uma certa tristeza em deixar de acompanhar as brigas de Márcio ou os recados pra Luis Henrique. É como acompanhar uma série ruim cancelada por falta de audiência e de repente você se vê sem um desfecho e é obrigado a ler fics ruins de um fandom que sempre acaba por colocar dois personagens dando um beijo desajeitado e uma transa despropositada pra descontar seus desejos mais recalcados.
Mas como a vida é esse meio copo cheio que você até pode beber, mas depois se depara com um copo inteiramente vazio, surgiu, também às 15h – horário do qual começo a desconfiar se não é apenas uma grande alucinação minha – um sorveteiro que, assim como Márcio, vaga sem soltar uma palavra, nem mesmo a palavra Sorvete, que ao meu ver poderia aí ajudar a impulsionar as vendas; ao invés disso, ele usa uma flauta que atinge oitavas ainda não estudadas pela Academia de Viena e deixam os cães num estado irreconhecível: é cachorro fazendo barra no portão, é cachorro cavando túneis pra arrastar o focinho pra fora em tom de ameaça, tem até cachorro que tenta ficar numa altura boa pra poder mijar e lá de cima acertar a boca do sorveteiro no exato momento em que ele vai soprar a flauta. Eu acabo me preocupando porque de repente ele nem vende sorvete, vai que é tudo um plano pra hipnotizar cães pra iniciar a revolução por dentro? Imagina como seria a ditadura canina: é você ter aí um cachorro preso na tua perna o dia inteiro e você não poder fazer nada além de jogar uma bolinha pra longe, afastado de sua família, mantida em cárcere pra garantir que a brincadeira jamais acabe.
Lembro que no bairro onde cresci passava todas as tardes o carrinho da pamonha que, não sei se por uma má qualidade da caixinha de som ou se por uma provocaçãozinha de um possível ativista vivendo ali no limiar do anonimato e do pioneirismo da militância, mas podia facilmente se confundir com o carrinho da maconha, o que às vezes gerava muitas filas e constrangimentos desnecessários: a garotada saía correndo em direção ao moço da mesma forma que os cachorros correriam não fossem metros e metros de portões. Alguns mais desavisados e curiosos até compravam e saíam correndo animados pra comer escondidos em seus quartos e depois reclamavam que não estavam nada relaxados e ainda sem poder rir das desgraças da vida.
A conclusão em que cheguei é que bairro saudável é bairro com cachorro irritado e vizinho infeliz. Do contrário não é bairro, é condomínio – e isso encarece muito o processo das coisas mesmo que não tenha portaria 24 horas. Mais vale investir em um fonezinho com isolamento acústico e deixar o mundo lá fora ruir, enquanto a gente ouve um sonzinho de chuva pra fingir que é feliz e tentar dormir por 8 horas – coisa que até consigo, menos, aparentemente, sem entender porque, às 15h.

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