Paulinho Perna Torta

De vez em quando me vem umas expressões na cabeça e eu fico pensando se elas são expressões populares que realmente existem ou se são só coisa da minha cabeça. Mas aí vem o alívio imediato porque, de toda forma, ninguém liga, né?

Primeiro que eu acho difícil que uma expressão que ninguém conhece vai gerar um tipo de revolta, uma revolução, as pessoas não vão pra rua nem vão gerar grandes debates. Segundo que eu não acho que tenha um órgão regulador de expressões populares – e se tiver é um órgão bem impopular e impopular você sabe, né? a gente esquece.

É como aquele amigo extremamente impopular que você conheceu na época de escola. Ele provavelmente tinha um apelido pejorativo, algo como Zé Ranhento ou Chico Vareta – é também estatisticamente comprovado que todo temos ou teremos um Bola ou Batata em nosso círculo de amigos, ambos atos de gordofobia, mas por alguma razão o primeiro apelido é facilmente condenável, enquanto o segundo passa ileso por entre as lacunas das leis brasileiras.
No meu caso, conheci Paulinho Perna Torta, que mudava de apelido a cada ano que passava porque as pessoas simplesmente nem se esforçavam pra fingir que se importavam e chamavam ele de qualquer coisa sem saber muito quem ele era. Lembro que lá pela 7a série a gente lembrou: “Não tinha aquele cara lá?” Aquele cara lá já tinha saído da escola fazia 3 anos e a gente nem tinha se tocado.
Esses dias me veio essa expressão: “A cada dia vivido, uma nova lição aprendida. A cada nova lição aprendida você fica menos burro”. O que particularmente eu acho errado. A cada dia a gente deixa escapar a chance de ser feliz sendo burro.

É por isso que a gente lembra do passado com alegria, porque a gente era burro, aí analisava a coisa na simplicidade da alegria que ela era. E era justamente por conta dessa simplicidade que só a ignorância traz que no passado tivemos sorte de ter Ary Toledo como um dos grandes expoentes do humor brasileiro, afinal ninguém mais tinha aí 50 variações daquela piada “um padre, um rabino e um ateu estão em um avião caindo e…”, e muita, mas muita piada que envolvia basicamente bunda ou peido.
Nessa época o peido por si só era uma coisa engraçada, um humor fácil e certeiro: sem piada? era peidar e as pessoas todas riam. Por alguma razão , nos anos 90 a gente ainda não tinha superado o peido – acho que tem a ver com a fase anal freudiana.

E ao mesmo tempo que a gente sabia das possibilidades de humor instantâneo, tínhamos muito medo de sermos humilhados ao ser o alvo da risada das pessoas. Porque se o peido é uma obra de arte é uma obra de arte sem assinatura, já que ninguém quer ser seu autor. Todo mundo deixa a coisa existir sem saber direito quem é o dono, mais ou menos o que acontece com o NFT.

Quando ele acontece todo mundo sente, todo mundo se olha, mas poucos tem coragem de manifestar e falar sobre, dirá assumir a completa responsabilidade sobre o que ainda é o grande tabu de todas as sociedades. A cada novo peido em uma mesa de jantar, um novo jogo de detetive se instalava: as pessoas se olham desconfiadas umas pras outras e geram teorias de quem pode ser o incômodo culpado.

Porém nem sempre esse anonimato acontece e às vezes você se vê ali, pego em flagrante, caindo em desgraça pra seus colegas do trabalho ou familiares, sempre com o receio de se tornar aquela pessoa extremamente impopular, companheiro de Paulinho Perna Torta, o Chico Peidorreiro, o Zé Prega Frouxa. E infelizmente, ainda na infância, me vi diante dessa situação que fez daquele garoto um homem quase amadurecido.

Minha família sempre teve uma dificuldadezinha em ter refeições equilibradas e era comum ter frituras e coisas pesadas já no café-da-manhã. E foi justamente aquela linguicinha na chapa num pão francês com maionese que bateu naquela manhã de prova da 2a série em uma sala completamente silenciada. O plano parecia perfeito: terminaria a prova rapidamente, entregaria ao professor e pediria pra ir ao banheiro. Se tudo desse certo, ainda ficaria com o prestígio de ser o intelectual da sala que terminou antes de todo mundo. O problema é que a gente não tem controle sobre todas as coisas, como eu descobriria só anos mais tarde em terapia – que, diga-se de passagem, fui fazer em partes por causa de eventos como esse em minha vida.

Naquele misto de ansiedade em terminar a prova e perfeccionismo virginiano que me fazia trocar canetas, marcadores, pegar régua pra fazer gráficos perfeitos, acabei me descuidando e derrubando a caneta azul, principal artefato pra o sucesso daquela prova. Por alguns segundos fiquei olhando pra caneta na esperança de descobrir poderes telecinéticos que me ajudariam a não ter que agachar e aumentar a pressão em meu abdômen. Mas infelizmente a vida real não realiza sonhos, ela ensina duras lições pra você deixar de sonhar.

Depois de falhar em adquirir poderes inumanos, tentei buscar um olhar solidário de algum amigo ao meu redor, mas todos estavam compenetrados demais naquela prova que exigia muito da gente que ainda não tinha vivido o suficiente pra aprender lições. Então comecei a puxar calmamente a caneta com o pé, cuidando pra não esticar ou forçar demais a minha perna. Eu só esqueci que eu não tinha elasticidade o suficiente pra erguer a caneta com a perna e eu precisaria de qualquer forma me agachar.

Olhei os olhos de meu professor e vi certa cumplicidade, como alguém me encorajando a sobrepujar meus medos. Foi aí que respirei fundo, acenei a cabeça em consenso pra meu professor, e mergulhei naquele mar de incertezas. E foi aí, no ápice de minha coragem e segurança que me veio em mente outra expressão popular: “Não sabendo que era impossível ele foi lá e descobriu que era impossível”. Apesar de meus esforços, ele surgiu, num estampido oco, seco, certeiro, como uma garrafa de champagne sendo destampada, ironicamente em momento em que não havia nada para comemorar.

Fechei os olhos e me reergui torcendo pra ninguém tivesse percebido. Foi aí que eu a vi, a musa da sala, a quem todos cobiçavam – e que para manter o anonimato chamaremos apenas de Shoshana Maria – a me olhar fixamente, sem reação. Tentei pedir clemência com um olhar arregalado, Shoshana Maria deixou soltar um “Eita!” e prontamente foi cochichar no ouvido da amiga que sentava em frente, que repetiu o movimento que se perpetuou num eterno telefone sem fio que, eu sabia, minava pouco a pouco o pouco de reputação que eu tinha. Naquele momento me senti mais próximo de Paulinho Perna Torta, em como negligenciamos seus sentimentos e em quão incrível ele poderia ser, mas nunca demos a oportunidade de mostrar isso.

Eu deveria ter aprendido uma valiosa lição naquele dia, mas o que restou foi mágoa e rancor. E anos mais tarde quando Gabriel repetia o mesmo feito, eu fiz questão de ser sua Shoshana Maria, apontar o dedo em sua cara e gritar pra toda a sala: O Gabriel peidou! O Gabriel peidou! E eu nunca me senti tão bem em minha vida em escolher ser burro e deixar de aprender lições pra ser feliz.

Uma resposta para “Paulinho Perna Torta”.

  1. Avatar de Luiz F. Guimarães
    Luiz F. Guimarães

    Rapaz, esse negócios de apelido me desbloqueou umas memórias aqui, velhas e novas.

    Estudei com um sujeito baixinho e narigudo que era apelidado de Pingua, ou Pinguim. Associação pessoa-apelido era óbvia pra todo mundo, menos, é claro, para mim. Um dia, em uma grande mesa de bar, insisti em entender o porque ele tinha esse apelido. Testemunhei ali mesmo o próprio inventar uma história do tempo que praticava natação infantil e que amava ficar nadando. O constrangimento veio à galope para todos no local.

    Passei os últimos 12 anos acreditando que aprendi a lição, até que dia desses perguntei para uma pessoa com vitiligo porque seus amigos o chamavam de Mortadela.

    Pessoalmente, prefira ter peidado nos dois cenários do que viver isso.

    Curtir

Deixe um comentário