
Eu devia ter uns 5 anos quando soube que A mudaria, não só de escola, como também de bairro. Embora não entendesse muito bem o porquê, sabia que aquilo me magoava e, não me lembro muito bem, mas acho que nunca externalizei isso.
A coisa aconteceu rápido demais e sem maiores adeuses. Quando dei por mim A já não estava lá pra responder a chamada e a sua cadeira, ao meu lado, estava vazia. Naquele ano, sempre que passava por aquela casa que um dia foi sua, me vinha o confuso sentimento de saber que, por mais que aquelas paredes todas estivessem impregnadas de sua presença, se eu chamasse bem alto ou tocasse a campainha bem forte, A não responderia. Sua casa, como sua cadeira, vazia. E foi só aí, digerindo sua ausência, que entendi que ela tinha sido minha primeira paixão.
Já na adolescência, me apaixonei por L. E nessa fase em que tudo parece ser intenso demais, sentia misto de vergonha e tristeza por todas as vezes em que gaguejava ou falava coisas sem sentido perto dela – ou pelas vezes em que tentava impressionar e acabava tropeçando ou passando vexame maior. Cheguei até a escrever cartinha com confissão dramática desse amor que, embora nunca tenha entregado, por um descuido caiu nas mãos de meus irmãos que devidamente zombaram de mim e ainda contaram para sua família. L sabia e, no entanto, não fez nada sobre isso, nunca falou sobre isso.
Ao final da 5a série, muitos anos antes de conhecer Quadrilha de Drummond, entendi que Eliezer amava L que amava V, então meu melhor amigo. E em um lar onde não havia abertura para se abrir emocionalmente, tive de entender sozinho o que isso significava.
Acho que foi depois disso que me aproximei mais de J, melhor amiga de L, não sei bem ao certo se houve motivo. Sem muito planejamento nem perceber, compartilhamos muito, estreitamos laços e adorávamos quando associavam um ao outro: J, e o Eli, como vai? E aí Eli, tudo certo com J? Foi em dia comum, em casa, enquanto pensava em J que me ocorreu que estava apaixonado por ela e esse pensamento me trouxe conforto, mas também pavor: como amar sua melhor amiga? Como amar a amiga de quem um dia você jurava amores? Demorei tanto tempo tentando responder essa pergunta que, mal percebi, J estava namorando B que, assim como J. Pinto Fernandes, ainda não tinha entrado na história. Ainda que não tivesse se mudado como A, fiz com que J fosse se ausentando, até que se ausentasse de vez.
Apesar disso, foi com ela que entendi a importância de poder rir e se mostrar fraco e vulnerável para o outro. Foi com ela que entendi que há tempo de cuidar e ser cuidado e que às vezes se gosta tanto da presença do outro que a gente bate em seu portão sem ter nenhum assunto pra tratar e ainda assim troca por horas. E desde então eu nunca aceitei nada menos do que isso em relacionamentos – embora nem sempre tenha encontrado.
Em 2014, graças a uma bolsa de estudos, vivia um desses amores em Paris. E embora o intercâmbio tenha sido fascinante, estar 2 anos em país frio cujas pessoas são distantes, em língua que não a sua, longe de família e amigos é algo que pesa muito. Contudo, C estava lá pra me ajudar a suportar o insuportável. E se eu quisesse descrever sua importância pra mim eu provavelmente me demoraria e ainda atravessaria o perigoso terreno de confessar as qualidades de uma ex e ser mal interpretado. Porém, considero a atenção e a lembrança expressões genuínas e potentes de carinho e é a isso que vou me ater.
No meio das muitas anotações da Shakespeare and Co, uma delas me chamou muita atenção:
23.05.2014
when we were very poor and very happy
R+J
Por muito tempo tentei imaginar a vida desse casal. Talvez muito simples, com gastos contados para comer e vestir o básico, talvez devendo no banco e tendo que se ajeitar entre trabalhos extras e ainda assim felizes por terem um ao outro, por poderem se aquecer e dar colo quando o outro precisava desabar ou desabafar.
C talvez não tenha percebido, mas de longe a observava entre os livros e pensava a mesma coisa. Nós, saídos de cidades diferentes, mas condições muito parecidas, aprendemos desde cedo a lidar com pouco, com a simplicidade da vida, a entender um recorte social e muitas das vezes pensarmos que certas coisas ou espaços da vida não nos eram devidos, que não merecíamos ou simplesmente não conseguiríamos certas coisas. Nós que aprendemos desde a infância a ajudar um ao outro, a pensar no bem coletivo, a entender as injustiças e brigar por todas elas. Nós que tivemos de estudar dobrado pra passar em universidades públicas porque nossos pais não poderiam arcar com nossos estudos e nossos trabalhos mal pagavam metade da parcela de uma particular. Nós, saídos de tão pouco e de tão longe, estávamos ali em terras burguesas, em condições que pensávamos nunca viver, graças a uma bolsa do governo federal que uniu duas pessoas que nunca se cruzariam em outro contexto, duas pessoas que ali, naquele momento, embora carregassem o sonho temporário de uma condição melhor, continuavam muito pobres, mas também muito felizes, por terem ao menos um respiro, por terem ao menos uma chance, por viverem um amor maduro e importante em época tão incerta quanto aquela. E incorrendo no talvez erro de ser piegas, penso nessa potente arma que é o amor, capaz de fazer a gente seguir apesar dos inúmeros choros e vontade de simplesmente desistir dessa vida difícil que é ter que se dedicar muito mais do que aqueles que já saem na frente por terem nascido em berço de ouro se quisermos ocupar os mesmos espaços e comer da mesma comida.
Torço pra que R+J ainda estejam juntos, sejam muito felizes e que tenham melhorado sua condição financeira.

Se antes aqueles versos recortavam um outro momento meu, de certa forma, anos depois, são outros versos, os de Chico Alvim – talvez extremo opostos – que me acompanham.
Daqui a pouco
eu morro
e você
nem me aproveitou
Pós intercâmbio, sem casa, emprego ou dinheiro, voltei ao Brasil com o peso de um realidade que me forçou a deixar o choro pra depois. Voltei a trabalhar dobrado, voltei a dormir 4 horas por dia pra dar conta de tudo, voltei a não ter certeza se o cartão passaria no mercado, voltei a não poder simplesmente sair e gastar com lazer. Meu relacionamento com C acaba, penso em desistir da USP, percebo que não darei conta de entregar todos os artigos da faculdade e aceito reprovar em algumas matérias, não sem pensar nos efeitos negativos que isso terá em minha bolsa de mestrado e, portanto, futuro. Conheço a depressão e o alcoolismo. Tomo muitas decisões erradas, magoo muitas pessoas, muitas pessoas me magoam. Muitos se afastam por não saberem lidar com meu estado, eu não sei lidar comigo em meu novo estado. Terapia, remédio, instabilidade, dou um duro duplicado, triplicado, abandono a vida acadêmica e foco na indústria, que é o que paga comida e aluguel. Uma paixão surge, cresce e, de repente, se acaba. Me sinto cada vez mais perdido e distante, no fundo só querendo um pouco de atenção e abrigo, o que nem todo mundo sabe lidar ou quer ceder. Encontro os versos de Chico Alvim e choro sempre que penso: daqui a pouco eu morro e você nem me aproveitou.
Anos depois, felicidades e infelicidades nasceram e morreram. Longe de ser rico, mas já com vida financeira e carreira estáveis, não deixo de pensar no quão dura e complexa a vida pode ser. Em como poder aquisitivo não tem nada a ver com felicidade e, ao mesmo tempo, infelizmente muito necessário pra que ela exista. Em como o mundo é perigoso demais e enquanto a gente tenta sobreviver a ele uma vida toda pode passar e você não dar a atenção no que realmente importa. Uma vida pode passar e você não aproveitar nem a si mesmo porque estava preocupado demais em guardar o dinheiro para algo que nem sabe se quer.
Em completa ausência, os versos de Chico Alvim me alcançam porque não sei se aproveito a vida quando vejo no espelho o cabelo branco aparecer, o sobrinho a começar a namorar, as costas começarem a doer. Na carência e solitude dos dias, amanheço só e durmo só, sou eu o único a cuidar de mim, como foram todos esses anos. Quem romantiza o self-made man não sabe o trauma que dá ter que dar um jeito de comer na semana sem pedir ou avisar os pais pra que não fiquem preocupados ou tristes em não conseguir ajudar com o dinheiro contado, não sabe o que é ficar doente em casa e ter que cuidar de si, da limpeza, do trabalho, da universidade. Talvez carência, talvez amor, talvez o misto dos dois, penso naquela com quem gostaria de dividir a minha vida, pedir abrigo e descanso, porque estou exausto.
Os versos de Alvim dizem o que queria dizer, olhando nos olhos, mas tenho medo ou, quem sabe, até entendo que não faria efeito algum. Penso então nos versos de Drummond:
Nesta cidade do Rio,
de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto,
estou sozinho na América.
(…)
De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto. . .
Precisava de um amigo,
desses calados, distantes,
que lêem verso de Horácio
mas secretamente influem
na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
e a essa hora tardia
como procurar amigo?
E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
que entrasse nesse minuto,
recebesse este carinho.
salvasse do aniquilamento
um minuto e um carinho loucos
que tenho para oferecer.
Em hora dessas, tudo que quero é Chico Alvim esteja errado. Mas quem o saberá?

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