
Eu cresci num bairro chamado Jardim Álamo, um bairro abandonado por Deus apesar do excessivo número de igrejas por metro quadrado. Vai entender, né? O Álamo fica na divisa de Guarulhos com Arujá. Como município algum queria assumir as responsabilidades da infraestrutura, cresci com ruas de terra vermelha que empoeiravam as roupas em dias de sol e se derretiam em lamas que derrubavam e sujavam os moradores em dias de chuva.
Como era um bairro afastado e sem nem ônibus direito, nada chegava ali. Um ambiente propício pra qualquer contador de história ou presidente cretino da república se dar bem com as suas mentiras. Até hoje eu não sei direito o que de fato aconteceu ou não ali pela mitologia do bairro, mas afirmo com tranquilidade que Seu Manuel construiu o próprio violino e o próprio carro. Agora, se eles eram bons, isso já é outra história e eu não tô aqui pra julgar ninguém.
Ainda na era sem internet, entre um jogo de taco ou esconde-esconde, meu entretenimento era basicamente desenhar, ler os livros com defeito que meus tios traziam da gráfica onde trabalhavam e ver muita TV. Quando eu digo muita TV, eu tô dizendo que eu era um expectador profissional: gastava um tempo vendo a programação da TV no jornais, marcava o que eu queria ver, na ordem que eu queria ver, e quando minha mãe não estava vendo novela e meu pai não estava vendo jogo, o controle era todo meu. Não tinha essa de ficar zapeando não: deu 15h, bota no Pequeno Urso.
Toda criança educada pela TV dos anos 90 passou pelo grande delírio coletivo que foram os animes da TV Manchete – inclusive sempre que ouvia “Versão brasileira: Álamo” eu acreditava que era feito em meu bairro. E no grande escapismo que foi crescer muito pobre em bairro tão distante e sem informação, em algum momento eu e amigos nos deparamos com o universo dos mangás. Como eram muito caros, a gente sempre fazia vaquinha pra comprar um número e todos lerem.
Foi mais ou menos assim que chegamos em 2005: adolescentes pobres educados pela TV que liam mangás e outras fantasias como escape de uma realidade sem muita graça ou posse. No Natal desse ano estreava nos cinemas o primeiro filme do Nárnia e eu e Anderson, um amigo antigo desde a infância, decidimos traçar um plano pra tentar ver o filme pela manhã e de noite passar a ceia com a família.
A primeira parte do plano era conseguir dinheiro. E antes dessa onda de empreendedorismo, nós fundamos nossa primeira startup: a Terras da Madrugada. Ela se chamava assim por conta do modelo de negócio avançadíssimo que basicamente se consistia em retirar da casa das pessoas o entulho de construções e reformas, jogando esse entulho perto da casa de outras pessoas, durante a madrugada, garantindo sempre novos clientes. Nosso slogan era “você dorme, o entulho está lá. você acorda e ele sumiu”. Acho que chamava a atenção porque, no fim, todo mundo queria que funcionasse assim com nossos problemas.
Até conseguimos alguns clientes, mas nossa startup faliu, por motivos óbvios, sob a ameaça de vizinhos descontentes com lixos que apareciam perto de suas portas. Eu me vi obrigado a me lançar no mercado freelance e depois de montar muitos bocais para a Sadokin, uma empresa de lâmpadas perto do bairro, consegui R$20 que, na época, deveriam bastar para:
- R$9: duas meia-entradas para o cinema
- R$5: mangá do Holy Avengers
- R$5: fichas para jogos na Neo Geo
- R$1: para eventuais emergências – que poupar nunca é demais
Na manhã do Natal, Anderson pagou nossas passagens do intermunicipal com o Vale-Transporte do padrasto e nosso plano estava indo bem. Quando chegamos ao Cinema do Shopping Internacional Guarulhos, os guichês ainda estavam fechados. Então fomos comprar o mangá e gastar algum tempo na Neo Geo, como milimetricamente planejado. O que a gente não contava é que, quando os guichês abriram, os atendentes não aceitaram a minha carteirinha de estudante porque faltava o carimbo e assinatura da diretora da escola no verso, esquecidos porque o sistema de educação no Brasil tem esse nível de cuidado.
Até pensei em falsificar ali a assinatura, mas não tinha muito como simular o carimbo. Com arrependimento de ter gastado o dinheiro antes de garantir as entradas, já tinha me resignado a voltar pra casa, mas foi aí que Anderson me olhou no olhos com determinação e falou: a gente vai ver esse filme hoje! vamo dar um jeito agora! – e eu acho que foi essa a frase que inaugurou os coachs no Brasil.
O plano agora era outro, mais simples, porém objetivo: pedir dinheiro no shopping. Por medo da reação das pessoas, decidimos revezar os turnos, delimitar o pedido para R$1 por pessoa e nosso público-alvo seria a terceira idade – não sabemos se por acreditar na figura de idosos bondosos ou por mero desespero e instinto de saber que, se desse alguma merda, dava pra sair correndo com a garantia de não ser alcançado ou estrupiado na porrada. Afinal, a gente nunca tinha visto uma manchete do tipo “Super idoso dá uma coça em dois adolescentes que são internados em estado grave”.
Começamos tímidos, fomos bastante rejeitados, mas depois do primeiro real veio a confiança. O time foi se acertando e o professor foi fazendo um excelente trabalho pra ganhar todos os jogos em casa. Quando estávamos angariando o terceiro real que aconteceu algo que é responsável por pelo menos 30% da minha terapia ainda hoje.
Era minha vez. A gente tava perto da praça de alimentação e avistou um senhor parado olhando pra os lados. Até comentei que ele parecia ser gente boa e fui na confiança – nessa altura do campeonato eu já estava me sentindo o Lobo de Wall Street e quase abordava a pessoa falando “senhoras e senhores, tenho aqui uma oportunidade de investir na cultura de futuros profissionais desse país“. Depois de perguntar se ele poderia nos ajudar com R$1 o senhor franziu a testa, incrédulo, e repetiu como quem quisesse confirmar o que tinha ouvido: R$1? R$1? – e acho que isso serviu de premissa pra aquele vídeo do “TRÊS REAIS?!?!””
Ele me olhou nos olhos e falou “R$1, né? Vamo ali que eu vou buscar o seu R$1” e começou a andar me olhando, esperando ser seguido, o que fiz. Depois de uns 10 passos em silêncio, ele vira pra trás, ainda andando, e fala:
“Eu vou buscar o seu dinheiro ali na delegacia pra menor. Vamo lá?”.
Nessa hora eu só consegui pensar que eu não estava fazendo nada que pudesse me prender e decidi peitar o sujeito dizendo que eu o acompanharia até a delegacia. Foi aí que ele parou no meio da praça de alimentação e começou a gritar comigo. Dentre as coisas que falou teve:
- Você é desprezível, você não é homem. Esse é o jeito mais baixo de abordar uma pessoa.
- Se você não tem dinheiro pra vir ao Shopping, o que está fazendo aqui? Deveria ter ficado em casa
- Você é uma vergonha para o seu pai
- Por que não usa o dinheiro que tem aí e pega um táxi pra voltar pra casa?
No meio da Praça de Alimentação, todos olhavam a cena com os olhos arregalados, o senhor berrando na minha cara e eu fiquei quieto, sem muita reação, me sentindo extremamente exposto e humilhado. Veio a vontade de chorar e eu só saí dali com muita raiva, deixando ele esbravejar pros ventos.
De tudo que reverberou na minha cabeça naquela hora, a frase que ao mesmo tempo me trazia muita raiva, também me trazia certo conforto: pega um táxi e volta pra casa. Eu, morando no Álamo, onde nem asfalto chegava. Aquele senhor jamais entenderia nossa realidade de rachar dinheiro pra comprar mangá, de ver geleia nos desenhos, mas não fazer ideia do gosto por não ter dinheiro pra comprar, de não ter poder de decisão em seu estilo, já que as roupas que usava eram as que herdava dos meus 4 irmãos que vieram antes de mim – quando chegava a minha vez de usar já se podia dizer uma roupa retrô, o que talvez tenha influenciado em meu estilo atual.
Depois desse trauma, hesitamos bastante em voltar a pedir dinheiro. Mas como o horário do filme foi batendo a gente decidiu falar com um moço, pedindo a licença de contar a história desde o começo. Ele se compadeceu e tirou do bolso da camisa um bolo de notas que fez tudo acontecer em câmera lenta. Enquanto ele ia passando os dedos pelas notas a gente ia pensando: vai dar uma nota de R$10? Uma de R$50? Mais de uma nota? Foi aí que ele achou uma nota de R$5 e deu pra gente que, eternamente agradecidos, quase abraçamos o sujeito.
Entramos em cima da hora na sessão e, na época, adoramos o filme. Estávamos com o coração aquecido e quase voltando a acreditar na humanidade. Mas aí na hora da volta tomamos uma chuva violenta e pegamos o ônibus lotado e abafado pra lembrar de onde viemos e a humilhação do sujeito vir à tona: como seria poder voltar pra casa de táxi? Eu só fui saber a resposta dessa pergunta anos mais tarde e durante todo esse tempo eu jamais contei essa história a nossos pais, porque desde pequeno eu soube que eles também se sentiriam humilhados e impotentes e que o pobre, muitas das vezes, engole o orgulho e os sentimentos em prol de quem a gente ama e que a nossa vida só acontece assim: um apoiando o outro, revezando a passagem, rachando o mangá, escondendo coisas que podem machucar. A vida é meio isso.

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